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São Miguel do Gostoso

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Pincel                      

Sergio Ignacio      

 

 

 

 

 

 

O gramado está dourado.

Sobre o trilho maciço, de tom homogêneo, matizes mundanos correm velozmente, formando um facho radioso onde passos descalços e desencontrados marcam com doçura suas pegadas. Entre os dedos, espremidas, folhas prisioneiras acompanham com deleite o farfalhar de suas livres companheiras, que bailam, sem ensaio ou coreografia, ao sabor ritmado dos ventos.

O ar recende a lembrança.

Depois de alguns dias nesta vagarosa rotina de “observar”, de sentir, de auscultar o pulso da terra com as fibras da pele, descobri uma cor que não fazia parte da minha palheta. Um componente, sem dúvida alguma, revolucionário, poeticamente lustroso, pronto para encher o vazio de minhas telas com seu brilho de avenida em polvorosa.

Durante a caminhada à beira-mar, driblei as partidas de futebol dos pescadores, com seus gols improvisados entre varas irregulares e as laterais definidas pelo humor da maré, de um lado, e a areia fofa, de outro. Recostada na superfície gasta dos barcos regressos de mais um dia de pesca, a torcida vibrava, xingava, perseguia o árbitro inexistente, ria-se até não poder mais das trapalhadas vistas no certame.

Rumo à ponta do Santo Cristo, bem na esquina do Brasil, minha torcida era outra, igualmente vibrante, porém sem jogo em andamento. Caminhava, simplesmente, ora sem pretensão maior senão sentir as dádivas da natureza, ora com a esperança infértil de encontrar alguma coisa que nem saberia como explicar, maior que o horizonte das águas, o limite do céu e a lâmina especular que os divide na estratosfera.

É lá, onde o vento faz “a curva” e o mar enche os olhos de quem chega, que reside uma certeza: a de que a surpresa das cores já se esgotou.

Ledo engano.

Não pelo azul intenso do céu, pelo amarelo nômade do sol ou pelo verde vivo das folhas dos coqueiros. A chuva leve, rápida e silenciosa, em convívio com o crepúsculo, traz uma nova percepção.

A luz surpreende ao refletir sobre o verde um dourado sereno, que rouba o matiz real para entregar, nas texturas da natureza, um tom que só a soberania do céu pode oferecer ao homem.

Bate a brisa.

Os coqueiros seguem em trilha, para receber o ouro, para dar vida a esta cor intangível, abstrata, que só a imaginação pode atingir em sua múltipla inventividade. Banhando suas folhas, o ouro resplandece, com a mesma vivacidade que os tesouros das histórias de piratas.

São quinze minutos de um tom que não se repete amanhã, nem se repete nunca, pois a natureza é artista de uma só noite e quem não viu não mais verá igual. Quinze minutos de um tom que vai recebendo um cobalto linear em seu matiz, acolhido pelo ir e vir lânguido da maré em noite de lua cheia e que, com toda a certeza, surpreenderá o homem com mais um de seus truques de magia (truques de natureza) no dia seguinte.

Nos dias seguintes...

 

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[Janeiro 2009]
Pincel

 

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